Todos erram. Errar é humano já diz o ditado popular, mas o perdão deve ser uma preocupação permanente entre os homens e não a vingança, meus filhos. Se errar é compreensível que aconteça, então, o perdoar das faltas deve ser algo natural e não retribuir à altura a falta cometida. Perdoar e não vingar é o tema da nossa reflexão desta manhã.
Tenho visto, aos montes, pessoas instruídas, e outras nem tanto, adotarem como princípio de vida a vingança nos seus atos. É incrível, mas é assim, as pessoas, no mundo cristão, retribuem na mesma moeda aquilo que foram vítimas, não perdoam. A vingança fere ainda mais, pois começa a gerar um ciclo vicioso sem fim. Vingança gera mais vingança que, como resposta automática, gera ainda mais vingança. A vingança, assim, é interminável.
Os vingadores sentem o seu amor-próprio ferido, não querem qualquer desculpa sobre as ações dos outros na sua vida, nada querem compreender dos motivos do erro do outro. É impossível passar em branco um ato de violência contra si.
Vingar-se, meus amigos, é ato cruel e, consequentemente, ato menor. A paz, que tanto defendemos, é impossível de brotar num ambiente de vingança. Por isso, quem promove a paz, o elemento propulsor da paz, é o perdão, porque o perdão estanca, na raiz, a proliferação da violência.
Esses meus argumentos, que não são originais, promovem no ser humano o estacionamento do ato agressivo. Deve-se compreender o motivo das ações contrárias a você, as razões que alguém se comportou mal, e tentar dar a isso um sentido. Se a animosidade permanece, isto deve ser preocupação do outro, não sua.
Jesus de Nazaré, nosso Irmão Maior, disse-nos, alertando contra este estado nefasto da vingança, que o perdão deveria ser exercido não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete, isto é, o perdão é interminável, não há limite para o perdão. E você, como se comporta diante de um ataque?
A primeira reação, de muitos de nós, é de retribuir na bucha. É natural diante de um estado de coisas, mas este procedimento, esta vontade, deve ser combatida imediatamente.
Quanto vejo, meu Pai, brigas intensas, que beiram a violência explícita, às vezes com consequência seríssima, tudo por motivos irrelevantes, mas que tocou a alma, feriu as suscetibilidades e não foi relevado.
Lutar contra esta fera interior, que desperta dentro de nós, deve ser preocupação de todos. Se deixássemos que as nossas feras acordassem, o mundo inteiro seria uma grande selva, não é verdade?
O Pai, que é bom, perdoa e perdoa sempre aos nossos desatinos.
Jesus, nosso mestre amigo, perdoa sempre as nossas invigilâncias.
Ora, meus amigos, se os outros nos perdoam, por que não devemos perdoar igualmente?
Alguém nos diz: Mas Dom Helder isto é imperdoável. É certo que há faltas mais sérias do que outras, mas cada um é responsável pelos seus atos e vai responder perante Deus sobre eles.
Perdoar é dar significado à vida. É livrar-se de um peso. Sim, porque quem não perdoa estará carregado, indefinidamente, um grande peso consigo, que não para de aumentar.
Perdoe, meu amigo, e perdoe logo, se alguém te fez um mal. Releve. Passe adiante, vá cuidar da sua vida, e deixe que o tempo ajuste, naturalmente, o erro cometido contra você.
Neste meu argumento a favor do perdão, não invalida, em momento algum, o uso da justiça. Quando o fato é relevante, de alto teor, busque a justiça, mas no sentido reparador da falta. É o outro que deverá entender que tal procedimento é nocivo e fere a suscetibilidade do agredido e, portanto, sua falta deve ser reparada.
Meus filhos, despeço-me, nesta manhã de domingo, na esperança de vê-los felizes. Uma felicidade desprovida de culpas e de ressentimentos, senão não seria felicidade verdadeira.
Que os teus sentimentos maiores, aqueles sentimentos divinos, despertem e não se desapareçam de dentro de você. É isto o que eu desejo.
Muita paz,
Helder Camara
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