domingo, 29 de janeiro de 2012

Insensibilidade Social

Meus queridos irmãos!

Não posso furtar de dizer tudo aquilo que passa em meu coração.

A vida é bela para aqueles que sabem desfrutá-la para o bem e será cruel para aqueles que inverterem as prioridades de suas vidas e as desgraçarem com atos ignóbeis. Mas o que tenho a vos dizer neste dia belíssimo que se inicia é que todos, literalmente todos, são convidados por Deus pai a construir um mundo melhor a cada dia que chega, independentemente de seu credo religioso. Há muito por se fazer em toda parte do mundo e por que não abraçar uma causa e pô-la em prática imediatamente?

Quando faço este alerta é para que vocês possam se sentir úteis no plano de Deus. Algo você pode fazer na obra redentora de Deus entre os homens.

Um fato que me chamou a atenção recentemente e que volto a tocar na mesma tecla é a invasão de terrenos públicos e privados, que prefiro denominar como ocupação de espaços ociosos, e depois a sua destruição por um ato oficial da Justiça. Neste caso, lembro o que ocorreu esta semana em São Paulo. Uma cena dantesca , de pouquíssima ou nenhuma sensibilidade humana, a desocupação selvagem da comunidade do Pinheirinho.

Meu Deus, como pode acontecer aquilo ainda nos dias de hoje?

Como pode ser visto tamanha brutalidade de irmãos para com outros irmãos?

Não posso ficar calado às injustiças, ao que se faz de errado por este mundo, mas vejo aqui no meu País de origem na última vida uma cena que não mais gostaria de ter visto, mas que, infelizmente, se repete.

Mães com filhos, pais de mãos na cabeça, sendo jogados a rua como se animais fossem. Mesmo se fossem animais o procedimento deveria ser outro. Não viram os senhores soldados, que cumpriam uma ordem judicial, que ali estavam pais de família iguais a ele? Não perceberam que ali estava ele mesmo que também possui dificuldades de moradia? Ora, ninguém, de bom senso, ocupa um espaço porque quer. Este problema é antigo e sempre me preocupei com ele. A ocupação acontece porque o poder público não foi capaz de suprir as necessidades de toda a gente. Somente por isso. Oportunizem residências dignas e dentro das possibilidades de compra das pessoas que elas vão morar em algo oficial. Não tenho qualquer dúvida disso. No caso de Pinheirinhos, pelo que sei, havia já toda uma infra-estrutura montada e pelo próprio poder público. Então, já havia o reconhecimento de que aquela comunidade se estabelecera, criara raízes, identidade, tudo o mais.

Agora, o que vimos, foi uma catástrofe social. Um ato de covardia. Para que serve o poder público senão para dar soluções aos grandes problemas de nosso povo?

Foi tudo muito rápido, não deu tempo para reação. Muita gente foi surpreendido, literalmente, permita-me o trocadilho, de calças na mão.

Como pode se fazer isso e que não haja a revolta popular.

E para que propósito? A reintegração de posse é correta, mas uma vez ocupado, caberia ao poder público agir para minorar ou eliminar aquela situação de irregularidade.

Todos os dias, no Brasil, alguém está procurando um espaço para morar, porque morar é algo sagrado. Ter um lugar seu para ficar, dormir, se alimentar, ficar em paz depois de um dia de trabalho.

Pinheirinho é uma demonstração da falta de sensibilidade social. É a demonstração que algo precisa ser feito para a nossa gente mais sofrida. Os programas habitacionais recentes são importantes para boa parte do povo, mas há outra parte do povo que ficou de fora e não vai poder ser incluído porque ainda está num grau inferior de renda daquele que se imagina. Outras soluções, como a de parceria na construção, podem ser incentivadas a custos bem mais acessíveis. O que não se pode mais é tratar gente como se estivesse tangendo animal. Isto não.

Precisamos resolver este problema logo no Brasil. No mundo, deparamos com este problema e, em muitos casos, de difícil solução, mas é preciso uma política pública diferenciada àqueles que, de fato, não possuem condições para as ações oficiais de aquisição de moradia.

No meu Recife querido, vejo com bons olhos algumas iniciativas públicas, mas ainda é pouco. Há numerosas comunidades que ficam a mercê da sorte e de Deus. Há gente, meu Pai, que uma onda mais severa leva tudo. Uma chuva mais intensa, desaba tudo. Um vento mais forte, destrói tudo.

Pensemos em Jesus que nos deixou claro, claríssimo, o preceito de que ao fazer para um de seus irmãos era para ele que estaríamos fazendo. Sendo assim, façamos urgentemente casas para Jesus, Jesus precisa ter um lugar digno para morar.

Um abraço,


Helder Camara

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